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sexta-feira, 12 de março de 2010

Bibliotecário: portal do saber


Sempre quisemos lembrar mais, e continuaremos, creio eu, a tecer redes que retenham as palavras, na esperança de que, de algum modo, em meio à quantidade de coisas ditas num livro ou numa tela, haja um som, uma frase, um pensamento que valha por uma resposta. Toda tecnologia nova tem suas vantagens sobre a anterior, mas necessariamente perde algo dos atributos de sua predecessora. A familiaridade, que certamente gera desdém, também gera conforto; o estranho é fonte de desconfiança. Minha avó, nascida no interior da Rússia no fianl do século XIX, tinha medo de usar a nova invenção - o telefone - que chegara a seu bairro em Buenos Aires e que não lhe deixava ver o rosto da pessoa com que falava. "Isso me faz pensar em fantasmas", explicava ela.

O texto eletrônico que não precisa de páginas pode acompanhar amistosamente a página que não precisa de eletricidade; não precisam se excluir em seu afã de nos servir melhor. A imaginação humana não é monógama nem precisa ser, e novos instrumentos logo estarão ao lado dos PowerBooks que agora estão ao lado de nossos livros nas bibliotecas multimídia. Se a Biblioteca de Alexandria foi o embelma de nossa sede de onisciência, a Web é o emblema de nossa sede de onipresença; a biblioteca que guardava tudo transformou-se na biblioteca que guarda qualquer coisa. Alexandria enxergava-se modestamente como centro de um círculo limitado pelo mundo conhecido; a Web, como uma definição de Deus imaginada pela primeira vez no século XII,1 entende-se como um círculo cujo centro está em toda parte e cuja circunferência não está em lugar nenhuma.

Ainda assim, a sensação de infinitude criada pela Web não fez diminuir nossa velha sensação de infinitude inspirada pelas bibliotecas antigas; ela apenas lhe conferiu uma espécie de intangibilidade tangível. Pode vir a existir uma técnica de armazenamento de informação junto à qual a Web nos parecerá familiar e caseira, com toda a sua vastidão, à meneira dos edifícios envelhecidos que algum dia abrigaram as bibliotecas nacionais de Paris e Buenos Aires, Beirute e Salamanca, Londres e Seul.

Bibliotecas sólidas de madeira e papel, ou bibliotecas de telas brilhantes e espectrais são prova de nossa crença duradoura numa ordem vasta e atemporal que intuímos ou percebemos vagamente. Em maio de 1945, durante a insurreição tcheca contra os nazistas, com as tropas russas às portas de Praga, a bibliotecária Elena Sikorskaja, irmã de Vladimir Nabokov, percebeu que os oficiais alemães em retirada não haviam devolvido vários livros emprestados da biblioteca em que ela trabalhava. Ela e uma colega decidiram recuperar os volumes à solta e partiram numa missão de resgate pelas ruas em que os tanques russos rugiam vitoriosamente. "Chegamos à casa de um piloto alemão que devolveu calmamente os livros", ela escreveu ao irmão, alguns meses mais tarde.2

(...)

Por mais sedutor que seja o sonho de um universo cognoscível feito de papel e de um cosmo dotado de sentido e feito de palavras, nenhuma biblioteca, por colossais que sejam suas dimensões e por infinito que seja o seu âmbito, jamais poderá nos dar um mundo "real", no sentido em que o mundo cotidiano de sofrimentos e alegrias é real. A biblioteca nos oferece uma imagem negociável daquele mundo real que (nas palavras do crítico francês Jean Roudaut) "gentilmente permite que o concebamos", bem como a possibilidade de experimentar, conhecer ou recordar algo que intuímos numa fábula ou adivinhamos numa reflexão poética ou filosófica.

Num momento de confusão, o evangelista são João nos diz que não amemos o mundo ou as coisas que há no mundo, pois "tudo o que há no mundo - a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o orgulho da riqueza - não vem do Pai, mas do mundo". Na melhor das hipóteses, a injunção é um paradoxo. Nossa herança humilde e espantosa resume-se ao mundo e apenas ao mundo, cuja existência estamos sempre testando (e comprovando) com as histórias que contamos a seu respeito. A suspeita de que nós e o mundo somos feitos à imagem de algo maravilhosa e caoticamente coerente, muito além de nossa compreensão mas ao qual também pertencemos; a esperança de que nosso cosmo estilhaçado e nós mesmos, pós de estrelas, sejamos dotados de sentido e método inefáveis; o prazer de repetir a velha metáfora do mundo como livro que lemos e no qual somos imagem criada pela linguagem - tudo isso encontra manifestação material nesse auto-retrato que chamamos de biblioteca. E nosso amor a ela, nosso desejo de conhecê-la melhor, nosso orgulho por suas façanhas, enquanto andamos entre estantes cheias de livros que prometem mais e mais delícias, são algumas das provas mais felizes e comoventes de que conservamos - apesar das misérias e pesares desta vida e mais até do que desejaria alguma divindade ciosa - uma fé íntima, consoladora, quiçá, redentora, em algum método por trás da loucura.

Em seu romance A flor azul, Penelope Fitzgerald diz: "Se a história começa num encontro, ela tem que acabar numa busca".

(...)

Não estou buscando nenhuma espécie de revelação, pois tudo o que me disserem será restringido pelo que posso ouvir e entender. Não busco um conhecimento além daquilo que, de algum modo secreto, já sei. Tampouco iluminação, à qual não posso sensatamente aspirar. Nem experiência, pois em última instância só posso me dar conta do que já está em mim. O que, então, eu busco, ao final da história de minha biblioteca?

Consolação, quem sabe. Quem sabe, consolação.

(Texto extraído de: MANGUEL, Alberto. A biblioteca à noite. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 263-266.).

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Bibliotecário(a), que o teu amor pelo saber impregnado nas bibliotecas
seja como um Portal aberto à consolação de muitos.

12 de março
Feliz Dia do Bibliotecário!







Um comentário:

Angela disse...

Estou atrasada, mas deixo meu desejo de felicidades para todos os bibliotecários dessa Universidade.